terça-feira, 11 de junho de 2024

História do Cemitério Nossa Senhora da Conceição

 


Durante muitos séculos sepultar as pessoas dentro das igrejas era uma prática comum, principalmente entre os católicos. Essa prática tinha suas raízes na crença de que estar mais próximo dos santos e do altar da igreja garantia um lugar de repouso mais sagrado e prestigioso para os fiéis. A proximidade entre a cova e o altar dependia do prestígio social do defunto. Pobres e escravos eram enterrados do lado de fora da igreja,


Jazigo do Capitão Domingos Gomes Ferreira, Igreja da Matriz de Inhambupe.

Assento de óbito de 1840. Disponível em https://www.familysearch.org/ark:/61903/3:1:9392-85SQ-9C?view=explore&groupId=M98J-V52


Na segunda metade do século XIX com o avanço da ciência, esses sepultamentos passaram a ser questionados. Os médicos alertavam para os problemas que essa prática tradicional católica de enterrar seus mortos no interior dos templos poderia causar. Eles afirmavam que os maus cheiros, emitidos pelos corpos em putrefação, poluíam o ar com gases e vapores que quando respirados pelas pessoas poderiam transmitir doenças.

Além das recomendações dos médicos, as autoridades também começaram a discutir a necessidade de construir cemitérios fora do espaço das igrejas. Essa discussão vai ganhar forças com a lei de 28 de outubro de 1828, que regulamentava o estabelecimento de cemitérios fora do recinto dos Templos, mas mantendo os mesmos sob a tutela das autoridades Eclesiásticas do Lugar. Com a promulgação dessa lei, inicia-se um debate nas Assembleias Legislativas provinciais para regulamentação e construção dos cemitérios na capital e no interior das províncias. Na Vila de Inhambupe, essa discussão inicia-se na primeira metade do século XIX. Quando em 1833, o padre Leonardo Lino Borges solicita às autoridades provinciais, providências orçamentárias para construção de um cemitério que se atende às necessidades da população local.

Com a agravamento das epidemias de varíola e cólera que assolavam a população de Inhambupe e região, a construção de um cemitério fora das imediações da Igreja do Divino Espírito Santo se fazia urgente e necessário, assim em 1857 a Câmara da Vila de Inhambupe solicitou ao Governo da Província verbas para a construção de um cemitério, mas o a solicitação não foi atendida.

O Uso da igreja e seu entorno como cemitério não oferecia segurança. As sepulturas eram rasas e, às vezes, emitiam odores desagradáveis e perigos, principalmente nas manhãs de verão, além disso alguns ossos de sepultamentos antigos ficavam expostos nas dependências da igreja.

Diante da gravíssima situação dos túmulos alocados na Igreja Matriz e de seus riscos à saúde pública, os reverendos lazaristas, que haviam chegado á cidade janeiro de 1872, deram os primeiros passos na execução da obra do cemitério.

Os lazaristas organizaram uma campanha afim de angariar fundos para financiar a execução da primeira etapa da obra do cemitério. Foi montada uma comissão para arrecadar dinheiro, administrar a compra do material necessário e acompanhar a realização da obra. Essa campanha conseguiu angariar 514$600 réis em dinheiro, além de voluntários para os trabalhos braçais. foram levantados os alicerces através de mutirões.

O projeto do cemitério foi elaborado pelo engenheiro Manuel Joaquim Brito, do Quarto Distrito das Obras Públicas, em data não identificada. O projeto previa a construção de uma capela, de sepulturas particulares, de sepulturas gerais, de carneiros para adultos nas laterais e para crianças na entrada. O cemitério deveria ser todo murado e arborizado. Sua localização era um pouco afastada do centro da vila, mas ainda dentro do perímetro urbano.

 

Imagem do Projeto de construção do cemitério da Vila de Inhambupe. Planta do engenheiro Manuel Joaquim Brito.

Imagem extraída de, Souza, Márcia Rita Silva. Irmandade Nossa Senhora da Conceição Imaculada dos passos: experiência associativa na Vila de Inhambupe-Bahia (1850-1889). Dissertação de Mestrado em História Regional e Local. Santo Antônio de Jesus, UNEB 2018.


Desenho da Capela de Nossa Senhora da Conceição

Imagem extraída de, Souza, Márcia Rita Silva. Irmandade Nossa Senhora da Conceição Imaculada dos passos: experiência associativa na Vila de Inhambupe-Bahia (1850-1889). Dissertação de Mestrado em História Regional e Local. Santo Antônio de Jesus, UNEB 2018.


Com a saída dos lazaristas, a comissão passou a enfrentar muitas dificuldades para dar continuidade às obras. A principal dificuldade foi os poucos recursos disponíveis, os 514$600 réis arrecadados só foram suficientes para construir os alicerces e parte do muro, e comprar o gradil de ferro. Sem recursos a Comissão se ver obrigada a parar as obras. Mas mesmo estando inacabado o cemitério passou a ser utilizado com o sepultamento de pessoas pobres e indigentes e vítimas da epidemia. Os sepultamentos eram feitos de forma desordenada e sem seguir as determinações do projeto.

Diante dessa situação em 08 de setembro de 1873, a Irmandade de Nossa Senhora da Conceição Imaculada dos Pardos através de um ofício de solicita à Presidência da Província o direito de construir e administrar o cemitério.   A proposta dos irmãos consistia em construir o cemitério com recursos próprios, estando a obra orçada em 12 ou 14 contos de réis, em contrapartida teria o direito de administrá-lo por trinta anos, sem interferência das autoridades locais, contudo a Irmandade da Conceição comprometeu-se com o sepultamento no mesmo cemitério dos pobres desvalidos.

Como não houve nenhuma objeção da   comissão responsável pelas obras do cemitério, o pedido da Irmandade foi assim atendido pelas autoridades provinciais, sem qualquer ressalva ou acréscimo.  Em 25 de setembro de 1873, a obra inacabada do cemitério foi entregue oficialmente à Irmandade. Os recursos para dar continuidade à obra viriam das economias da Irmandade e de donativos de irmãos e do povo em geral. No dia 24 de dezembro de 1874 a Irmandade de Nossa Senhora da Conceição comunicou às autoridades provinciais que as obras do cemitério tinham sido concluídas.

No decorrer das obras do cemitério, os atritos entre a Mesa diretora da Irmandade e o vigário da paróquia Antônio Lourenço Boaventura foram constantes, sendo necessário a intervenção do Governo da Província como mediador da questão. O vigário não aceitava que a administração do cemitério estivesse nas mãos da irmandade, pois segundo as Primeiras Constituições do Arcebispado da Bahia cabia ao pároco a jurisdição sobre o cemitério, e a lei imperial de 28 de outubro de 1828 também recomendava que os cemitérios nas vilas e nas cidades do Brasil Imperial fossem de responsabilidade da Autoridade Eclesiástica local. Inconformado padre Boa Ventura fez o possível para retardar a cerimônia religiosa de inauguração do cemitério, alegando que havia irregularidades na obra, e que a mesma não estava concluída de acordo com o contrato celebrado com Governo da Província e que ainda estava muito longe de ficar nas condições de poder receber a bênção reclamada. O pároco tinha interesses no descumprimento dos prazos, pois havia a possibilidade de a administração do cemitério passar para suas mãos. Apesar de todos os seus esforços o pároco teve suas alegações contestadas e até desmentida pelas autoridades, que não observaram qualquer impedimento estrutural ou de saúde pública, que justificassem o não funcionamento do cemitério. Diante da avaliação positiva emitida pelas autoridades, o Governo Provincial ordenou seu funcionamento e deu por encerrado este episódio.

Com o fim da irmandade (Em nada não identificada) a administração do cemitério passa para a paróquia do Divino Espírito Santo, que no início dos anos 90 por fim o entrega à Prefeitura Municipal de Inhambupe, que o mantém até os dias de hoje.

Entre o final dos anos 70 e início dos anos 80 a Capela Nossa Senhora da Conceição localizada no cemitério estava em ruinas e foi demolida com a promessa de se construir outra em seu lugar, mas no início dos anos 2000 como não havia mais espaço para novos sepultamentos no cemitério a área reservada para a construção da nova capela passou a ser utilizado para novas sepulturas.

No ano de 2006 como não havia mais espaço para novos túmulos o cemitério passou por uma pequena ampliação, o muro frontal foi derrubado e construído outro cerca de 40 metros á frente ocupando uma área onde antes era um canteiro e um jardim. Dessa forma o cemitério ganhou uma área de aproximadamente de 1400m2.

Cemitério antes da ampliação, junho de 2001. Fonte: Google Earth

Cemitério depois da ampliação 2024, Fonte: https://www.bing.com/maps


Foto dos canteiros que ficavam na frente do cemitério, antes da ampliação. Fonte: Fotografia aérea dos anos 80.

Essa ampliação não foi suficiente e atualmente o cemitério Nossa Senhora da Conceição não dispõe mais de espaço para novos sepultamentos, sendo utilizado somente pelas famílias que já dispõe de jazigos antigos. Outro cemitério foi construído no povoado de Juazeiro e é onde se realiza hoje a maioria dos sepultamentos.



Referencias bibliográficas:

Souza, Márcia Rita Silva. Irmandade Nossa Senhora da Conceição Imaculada dos passos: experiência associativa na Vila de Inhambupe-Bahia (1850-1889). Dissertação de Mestrado em História Regional e Local. Santo Antônio de Jesus, UNEB 2018.

https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/almanaque/um-certo-cheiro-do-altar-a-vida-antes-dos-cemiterios.phtml

Registros paroquiais, 1732-1902. Paróquia do Divino Espírito Santo Inhambupe. Disponível em: https://www.familysearch.org/

Relato oral do Sr. Valdomiro Alves de Souza (Miro), funcionário do cemitério á mais de 30 anos.

 

quarta-feira, 5 de junho de 2024

5 de junho Dia Mundial do Meio Ambiente




Neste 5 de junho Dia Mundial do Meio Ambiente, é crucial reforçar a importância da preservação do nosso planeta. Esta data nos convida a refletir sobre a importância de cuidar e proteger o meio ambiente, promovendo a conscientização sobre os desafios ambientais que enfrentamos e incentivando ações individuais e coletivas em prol da sustentabilidade.

A preservação do meio ambiente é fundamental para garantir um futuro saudável para as gerações presentes e futuras. A conservação da biodiversidade, a proteção dos recursos naturais, a redução da poluição e as práticas sustentáveis são aspectos essenciais para manter o equilíbrio dos ecossistemas e garantir a qualidade de vida de todos os seres vivos.

Além disso, a preservação do meio ambiente está intrinsecamente ligada ao combate às mudanças climáticas, à segurança alimentar, à saúde pública e ao desenvolvimento econômico sustentável. Ao adotarmos atitudes conscientes em relação ao uso de recursos naturais, à gestão de resíduos, à conservação da flora e fauna, entre outras ações, contribuímos para a construção de um mundo mais equitativo e saudável para todos.

Portanto, o Dia Mundial do Meio Ambiente nos lembra que cada um de nós tem um papel fundamental na proteção do nosso planeta. É necessário promover práticas sustentáveis em nossas comunidades, empresas e governos, bem como incentivar a educação ambiental e o engajamento cívico em prol da conservação ambiental. Juntos, podemos trabalhar para criar um futuro onde a natureza seja respeitada e preservada para as gerações vindouras.