Durante muitos séculos sepultar as
pessoas dentro das igrejas era uma prática comum, principalmente entre os
católicos. Essa prática tinha suas raízes na crença de que estar mais próximo
dos santos e do altar da igreja garantia um lugar de repouso mais sagrado e
prestigioso para os fiéis. A proximidade entre a cova e o altar
dependia do prestígio social do defunto. Pobres e escravos eram enterrados do
lado de fora da igreja,
Na segunda metade do século
XIX com o avanço da ciência, esses sepultamentos passaram a ser questionados.
Os médicos alertavam para os problemas que essa prática tradicional católica de
enterrar seus mortos no interior dos templos poderia causar. Eles afirmavam que
os maus cheiros, emitidos pelos corpos em putrefação, poluíam o ar com gases e
vapores que quando respirados pelas pessoas poderiam transmitir doenças.
Além das recomendações dos
médicos, as autoridades também começaram a discutir a necessidade de construir
cemitérios fora do espaço das igrejas. Essa discussão vai ganhar forças com a
lei de 28 de outubro de 1828, que regulamentava o estabelecimento de cemitérios
fora do recinto dos Templos, mas mantendo os mesmos sob a tutela das
autoridades Eclesiásticas do Lugar. Com a promulgação dessa lei, inicia-se um debate
nas Assembleias Legislativas provinciais para regulamentação e construção dos
cemitérios na capital e no interior das províncias. Na Vila de Inhambupe, essa
discussão inicia-se na primeira metade do século XIX. Quando em 1833, o padre
Leonardo Lino Borges solicita às autoridades provinciais, providências
orçamentárias para construção de um cemitério que se atende às necessidades da
população local.
Com a agravamento das
epidemias de varíola e cólera que assolavam a população de Inhambupe e região,
a construção de um cemitério fora das imediações da Igreja do Divino Espírito
Santo se fazia urgente e necessário, assim em 1857 a Câmara da Vila de
Inhambupe solicitou ao Governo da Província verbas para a construção de um
cemitério, mas o a solicitação não foi atendida.
O
Uso da igreja e seu entorno como cemitério não oferecia segurança. As
sepulturas eram rasas e, às vezes, emitiam odores desagradáveis e perigos,
principalmente nas manhãs de verão, além disso alguns ossos de sepultamentos
antigos ficavam expostos nas dependências da igreja.
Diante da gravíssima situação
dos túmulos alocados na Igreja Matriz e de seus riscos à saúde pública, os
reverendos lazaristas, que haviam chegado á cidade janeiro de 1872, deram os
primeiros passos na execução da obra do cemitério.
Os
lazaristas organizaram uma campanha afim de angariar fundos para financiar a
execução da primeira etapa da obra do cemitério. Foi montada uma comissão para
arrecadar dinheiro, administrar a compra do material necessário e acompanhar a
realização da obra. Essa campanha conseguiu angariar 514$600 réis em dinheiro,
além de voluntários para os trabalhos braçais. foram levantados os alicerces
através de mutirões.
O projeto do cemitério foi
elaborado pelo engenheiro Manuel Joaquim Brito, do Quarto Distrito das Obras
Públicas, em data não identificada. O projeto previa a construção de uma
capela, de sepulturas particulares, de sepulturas gerais, de carneiros para
adultos nas laterais e para crianças na entrada. O cemitério deveria ser todo
murado e arborizado. Sua localização era um pouco afastada do centro da vila,
mas ainda dentro do perímetro urbano.
Imagem do Projeto de construção do cemitério da Vila de Inhambupe. Planta do engenheiro Manuel Joaquim Brito.
Imagem extraída de, Souza, Márcia Rita
Silva. Irmandade Nossa Senhora da Conceição Imaculada
dos passos: experiência associativa na Vila de Inhambupe-Bahia (1850-1889). Dissertação
de Mestrado em História Regional e Local. Santo Antônio de Jesus,
UNEB 2018.Desenho da Capela de Nossa Senhora da Conceição
Com a saída dos lazaristas, a
comissão passou a enfrentar muitas dificuldades para dar continuidade às obras.
A principal dificuldade foi os poucos recursos disponíveis, os 514$600 réis
arrecadados só foram suficientes para construir os alicerces e parte do muro, e
comprar o gradil de ferro. Sem recursos a Comissão se ver obrigada a parar as
obras. Mas mesmo estando inacabado o cemitério passou a ser utilizado com o
sepultamento de pessoas pobres e indigentes e vítimas da epidemia. Os
sepultamentos eram feitos de forma desordenada e sem seguir as determinações do
projeto.
Diante dessa situação em 08 de
setembro de 1873, a Irmandade de Nossa Senhora da Conceição Imaculada dos
Pardos através de um ofício de solicita à Presidência da Província o direito de
construir e administrar o cemitério. A
proposta dos irmãos consistia em construir o cemitério com recursos próprios,
estando a obra orçada em 12 ou 14 contos de réis, em contrapartida teria o
direito de administrá-lo por trinta anos, sem interferência das autoridades
locais, contudo a Irmandade da Conceição comprometeu-se com o sepultamento no
mesmo cemitério dos pobres desvalidos.
Como não houve nenhuma objeção
da comissão responsável pelas obras do
cemitério, o pedido da Irmandade foi assim atendido pelas autoridades
provinciais, sem qualquer ressalva ou acréscimo. Em 25 de setembro de 1873, a obra inacabada
do cemitério foi entregue oficialmente à Irmandade. Os recursos para dar
continuidade à obra viriam das economias da Irmandade e de donativos de irmãos
e do povo em geral. No dia 24 de dezembro de 1874 a Irmandade de Nossa Senhora
da Conceição comunicou às autoridades provinciais que as obras do cemitério
tinham sido concluídas.
No decorrer das obras do
cemitério, os atritos entre a Mesa diretora da Irmandade e o vigário da
paróquia Antônio Lourenço Boaventura foram constantes, sendo necessário a intervenção
do Governo da Província como mediador da questão. O vigário não aceitava que a administração
do cemitério estivesse nas mãos da irmandade, pois segundo as Primeiras Constituições
do Arcebispado da Bahia cabia ao pároco a jurisdição sobre o cemitério, e a lei
imperial de 28 de outubro de 1828 também recomendava que os cemitérios nas
vilas e nas cidades do Brasil Imperial fossem de responsabilidade da Autoridade
Eclesiástica local. Inconformado padre Boa Ventura fez o possível para retardar
a cerimônia religiosa de inauguração do cemitério, alegando que havia irregularidades
na obra, e que a mesma não estava concluída de acordo com o contrato celebrado
com Governo da Província e que ainda estava muito longe de ficar nas condições
de poder receber a bênção reclamada. O pároco tinha interesses no
descumprimento dos prazos, pois havia a possibilidade de a administração do
cemitério passar para suas mãos. Apesar de todos os seus esforços o pároco teve
suas alegações contestadas e até desmentida pelas autoridades, que não observaram
qualquer impedimento estrutural ou de saúde pública, que justificassem o não funcionamento
do cemitério. Diante da avaliação positiva emitida pelas autoridades, o Governo
Provincial ordenou seu funcionamento e deu por encerrado este episódio.
Com o fim da irmandade (Em
nada não identificada) a administração do cemitério passa para a paróquia do
Divino Espírito Santo, que no início dos anos 90 por fim o entrega à Prefeitura
Municipal de Inhambupe, que o mantém até os dias de hoje.
Entre o final dos anos 70 e
início dos anos 80 a Capela Nossa Senhora da Conceição localizada no cemitério estava
em ruinas e foi demolida com a promessa de se construir outra em seu lugar, mas
no início dos anos 2000 como não havia mais espaço para novos sepultamentos no
cemitério a área reservada para a construção da nova capela passou a ser
utilizado para novas sepulturas.
No ano de 2006 como não havia
mais espaço para novos túmulos o cemitério passou por uma pequena ampliação, o
muro frontal foi derrubado e construído outro cerca de 40 metros á frente
ocupando uma área onde antes era um canteiro e um jardim. Dessa forma o cemitério
ganhou uma área de aproximadamente de 1400m2.
Essa ampliação não foi suficiente
e atualmente o cemitério Nossa Senhora da Conceição não dispõe mais de espaço
para novos sepultamentos, sendo utilizado somente pelas famílias que já dispõe
de jazigos antigos. Outro cemitério foi construído no povoado de Juazeiro e é
onde se realiza hoje a maioria dos sepultamentos.
Referencias bibliográficas:
Souza, Márcia Rita Silva. Irmandade Nossa Senhora da Conceição Imaculada dos passos: experiência associativa na Vila de Inhambupe-Bahia (1850-1889). Dissertação de Mestrado em História Regional e Local. Santo Antônio de Jesus, UNEB 2018.
https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/almanaque/um-certo-cheiro-do-altar-a-vida-antes-dos-cemiterios.phtml
Registros paroquiais, 1732-1902. Paróquia do Divino Espírito Santo Inhambupe. Disponível em: https://www.familysearch.org/
Relato oral do Sr. Valdomiro Alves de Souza
(Miro), funcionário do cemitério á mais de 30 anos.




